Banner publicitário

Casas Bahia expõe crise do varejo e mudança nos hábitos de consumo

Fechamento de 298 unidades revela a pressão sobre as grandes redes diante de um consumidor que pesquisa preços, transita entre canais e exige mais conveniência das lojas físicas

Banner publicitário

O fechamento de 298 lojas da Casas Bahia em agosto colocou novamente em discussão o futuro do varejo físico no Brasil. A medida faz parte da reestruturação do grupo, que pediu recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 17,3 bilhões. Além das unidades encerradas, cerca de 3 mil trabalhadores foram demitidos, segundo informações apresentadas pela companhia à Justiça.

Nesta quarta-feira, 19 de agosto, o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região determinou a suspensão das demissões coletivas e proibiu novos cortes sem negociação prévia com os sindicatos. A decisão, no entanto, não obriga a reabertura das lojas e mantém em aberto uma questão que ultrapassa o caso da empresa: qual é o papel do ponto de venda em um mercado no qual o consumidor pesquisa pelo celular, compara preços em diferentes plataformas e escolhe onde concluir a compra?

A resposta não parece estar no desaparecimento das lojas, mas na transformação de sua função. O consumidor deixou de seguir um percurso linear. Ele pode conhecer um produto nas redes sociais, consultar avaliações em um marketplace, conferir o item presencialmente e finalizar a compra pelo aplicativo. Também pode fazer o caminho inverso, comprando pela internet e recorrendo à loja para retirar, trocar ou buscar atendimento.

Nesse cenário, o caso da Casas Bahia revela não apenas a fragilidade financeira de uma empresa. Ele também expõe o esgotamento de um modelo baseado em estruturas caras, grandes estoques e canais que nem sempre funcionam de maneira integrada.

Crise financeira

A recuperação judicial da Casas Bahia ocorre dois anos depois de a companhia concluir uma recuperação extrajudicial, negociada principalmente com bancos, conforme informa o portal Terra. A medida anterior aliviou parte das obrigações financeiras, mas não resolveu os problemas de caixa nem eliminou o peso das despesas com juros.

Para a companhia, o novo processo faz parte de uma tentativa de preservar o negócio enquanto reorganiza seus passivos. “A recuperação judicial é um instrumento para fortalecer a continuidade da operação”, afirmou Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia, durante a teleconferência de resultados realizada em 17 de agosto. O executivo também reconheceu a necessidade de mudanças na estratégia: “Há ajuste de rota, mas não ajuste de destino”. As declarações foram reproduzidas pelo InfoMoney.

A renegociação das dívidas, entretanto, resolve apenas parte do problema. A continuidade da operação também dependerá da capacidade de acompanhar um consumidor mais informado, menos fiel e disposto a mudar de canal quando encontra preço, prazo ou atendimento melhores.

Consumidor híbrido

O comércio eletrônico deixou de ser uma alternativa usada apenas em ocasiões específicas. Segundo uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil, realizada em parceria com a Offerwise, 71% dos consumidores que utilizam o comércio eletrônico compram pela internet pelo menos uma vez por mês.

Preço e conveniência aparecem entre as principais razões para esse comportamento. No levantamento, 44% apontaram os valores mais baixos como uma vantagem das compras online. Além disso, 33% citaram a possibilidade de comprar sem sair de casa; 26%, a economia de tempo; e 23%, a flexibilidade de horário.

A mudança não significa, porém, que o consumidor tenha abandonado as lojas. Outra etapa da mesma pesquisa mostrou que 82% dos entrevistados ainda compram em pontos físicos. A diferença está no que esperam encontrar nesses espaços.

As lojas são consideradas superiores pela facilidade de troca, citada por 63% dos participantes, pelo atendimento, mencionado por 58%, e pela possibilidade de ver uma demonstração do produto, apontada por 55%. Já os sites se destacam pela variedade e pelos preços.

Esses dados mostram que o consumidor não escolheu definitivamente entre o físico e o digital. Ele combina os dois ambientes conforme a necessidade de cada compra.

Preço comparado

A pesquisa de preços se tornou uma etapa central da decisão. De acordo com o levantamento da CNDL e do SPC Brasil, 92% dos consumidores consultam informações pela internet antes da compra. Além disso, 73% pedem ao vendedor da loja física o mesmo preço encontrado no comércio eletrônico.

Essa comparação instantânea reduz a capacidade das empresas de manter condições diferentes em cada canal. O cliente que identifica um preço menor no site pode comprar pelo celular mesmo estando dentro da loja. Se não encontrar o produto, uma informação clara ou uma solução rápida, também pode migrar para um concorrente sem precisar se deslocar.

Para redes como a Casas Bahia, essa mudança é especialmente importante. Eletrodomésticos, móveis e eletrônicos são produtos que envolvem pesquisa, comparação e, muitas vezes, parcelamento. A loja permanece relevante para demonstração e negociação, mas já não controla sozinha a decisão.

A reputação digital também pesa. Segundo a pesquisa, 91% dos entrevistados priorizam empresas bem avaliadas na internet. Dessa forma, uma falha na entrega de uma compra online pode afetar a confiança na loja física, assim como uma experiência ruim no atendimento presencial pode levar o consumidor a procurar outra empresa no ambiente digital.

Peso das lojas

Mesmo com o fechamento de quase 300 unidades, a Casas Bahia ainda depende fortemente do varejo presencial. Em 2025, as lojas físicas responderam por 67,6% da receita bruta do grupo, de acordo com dados da companhia reunidos em reportagem do UOL.

O dado revela o paradoxo da reestruturação. A empresa precisa reduzir custos e eliminar pontos pouco rentáveis, mas não pode abandonar uma rede responsável pela maior parte de suas vendas. Além disso, no modelo historicamente construído pela Casas Bahia, a loja desempenha uma função que vai além da exposição dos produtos. É nela que muitos consumidores negociam o crediário, tiram dúvidas e estabelecem uma relação direta com a marca.

Ao mesmo tempo, o canal digital avançou 27,4% no primeiro trimestre de 2026. O crescimento reforça a necessidade de conectar as operações. Uma venda pode começar no aplicativo, passar pela loja e terminar com a entrega em casa. Para o consumidor, pouco importa qual canal ficará com o registro da transação. O que conta é encontrar o produto, pagar um preço competitivo e receber no prazo prometido.

Varejo pressionado

A mudança de hábitos ocorre em um período de menor disponibilidade financeira. Os juros elevados encarecem o crédito, afetam o parcelamento e aumentam as despesas das empresas. O endividamento das famílias, por sua vez, reduz o espaço no orçamento para a compra de bens duráveis, uma das principais categorias da Casas Bahia.

O consumidor, portanto, não se tornou apenas mais digital. Ele também está mais atento ao preço, às condições de pagamento e ao custo da entrega. A fidelidade construída durante décadas passa a disputar espaço com marketplaces capazes de reunir diferentes vendedores, comparar valores e oferecer prazos cada vez menores.

Apesar desse cenário, os dados nacionais não indicam o colapso completo do comércio. Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, o volume de vendas do varejo cresceu 0,5% em junho de 2026 ante maio. Em 2025, o setor acumulou alta de 1,6% e completou nove anos consecutivos de crescimento.

O resultado geral, contudo, esconde diferenças entre empresas e formatos. Redes com dívidas elevadas, muitos imóveis e operações logísticas complexas sentem com maior intensidade o aumento dos custos. Por outro lado, negócios capazes de ajustar estoques, preços e canais encontram mais espaço para responder às novas exigências.

Novas funções

A loja física deixou de ser apenas o lugar onde a venda acontece. Ela também pode funcionar como showroom, ponto de retirada, espaço para trocas, unidade de atendimento e pequeno centro de distribuição. Para o consumidor, essas funções representam a possibilidade de escolher como deseja comprar, receber ou devolver um produto.

No modelo conhecido como ship from store, por exemplo, o pedido realizado pela internet é enviado a partir da loja mais próxima. Com isso, a empresa pode reduzir a distância e o prazo da entrega, além de aproveitar melhor o estoque disponível. A retirada presencial, por sua vez, elimina o frete e permite que o cliente receba a compra no momento mais conveniente.

Entretanto, essa integração exige mais do que manter uma loja aberta. A empresa precisa atualizar os estoques em tempo real, alinhar preços, cumprir prazos e preparar os funcionários para atender clientes que podem ter iniciado a compra em outro canal. Caso contrário, a estrutura física se transforma em custo sem oferecer uma vantagem clara.

Presença estratégica

A crise atual não determina que toda rede deva diminuir sua presença física. Ela exige que cada unidade justifique sua existência não apenas pelas vendas realizadas no caixa, mas também por sua contribuição para entregas, retiradas, atendimento, relacionamento e construção de confiança.

O fechamento de 298 lojas da Casas Bahia provoca impactos sobre os trabalhadores, o mercado imobiliário e as regiões que dependiam desses estabelecimentos. Para a companhia, porém, o desafio não termina com a devolução dos imóveis. A recuperação dependerá da capacidade de entender um consumidor que não separa mais a loja do site, compara todas as condições e espera encontrar a mesma marca em qualquer ponto de contato.

A loja física ainda tem espaço nesse novo varejo. No entanto, sua relevância dependerá menos do número de endereços e mais da utilidade que cada um deles oferece ao consumidor.

Banner publicitário

Foto de Marina Paes

Marina Paes

Ler Mais