Mulheres recorrem às bets para tentar pagar as contas de casa
Pesquisa “Mulheres & Bets” mostra que a expectativa de complementar a renda e cuidar da família leva brasileiras às apostas online
Para muitas mulheres, apostar não começa pela diversão. Começa na conta de luz, no supermercado ou no material escolar dos filhos. Diante da promessa de dinheiro rápido, elas recorrem às bets na tentativa de complementar a renda e pagar as contas de casa, como mostra uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre o estudo.
Essa relação aparece na pesquisa “Mulheres & Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias”, realizada pelo estúdio CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O levantamento relaciona as apostas online à desigualdade de renda, à responsabilidade pelo sustento familiar e à sobrecarga de cuidado.
Segundo o estudo, 42% das brasileiras apostam ou já apostaram. Desse grupo, 20% continuam jogando e 22% deixaram de apostar. Entre aquelas que nunca jogaram, 12% afirmam sofrer os efeitos das apostas feitas por pessoas próximas. No total, 54% das mulheres são afetadas pelas bets.
Contas em jogo
Os relatos reunidos na etapa qualitativa mostram que parte das mulheres vê o possível prêmio como uma forma de pagar boletos, comprar comida, adquirir itens para os filhos ou proporcionar algum lazer à família.
“Eles querem viver com um pouco mais de dignidade: para além das necessidades imediatas, querem levar os filhos ao cinema, pedir um delivery e pagar o material escolar sem se preocupar com a conta de luz no final do mês”, afirma Beatriz Della Costa, fundadora e diretora da CLARICE, em declaração reproduzida pela Agência Brasil, publicada no jornal digital Poder360.
A aposta passa a ocupar o lugar de uma renda complementar. Entretanto, quando o ganho não acontece, o dinheiro perdido compromete justamente os recursos destinados às despesas domésticas.
Maternidade pesa
A maternidade tem papel importante nesse cenário. De acordo com a pesquisa, 72% das apostadoras têm filhos. Além disso, mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que aquelas que não são mães.
“O desejo de cuidar da família e prover para os filhos é o mais explorado pelas casas de apostas”, diz Beatriz.
O estudo também aponta uma cobrança desigual. Enquanto o homem que aposta pode ser visto como alguém que tenta sustentar a família, a mulher costuma ser responsabilizada por colocar em risco o dinheiro da casa.
O medo do julgamento contribui para manter o hábito escondido. Entre as apostadoras, 30% jogam principalmente à noite ou de madrugada, ante 20% dos homens. Além disso, 15% dos entrevistados acreditam que alguém com quem moram aposta em segredo e acumula dívidas.
Cassinos lideram
Apesar da associação entre bets e futebol, os cassinos virtuais são os preferidos das mulheres. Entre as apostadoras, 49% jogam em modalidades como roleta, caça-níquel e Jogo do Tigrinho. Outros 29% recorrem a jogos de resultado instantâneo, como Aviator e raspadinhas, enquanto 26% apostam em futebol.
Uma em cada quatro mulheres acredita que habilidade ou conhecimento podem aumentar as chances de ganhar. Entre as apostadoras frequentes, essa percepção chega a aproximadamente 40%.
Essa crença alimenta a ideia de que seria possível controlar o resultado. Assim, a jogadora pode insistir para recuperar o dinheiro perdido ou alcançar o valor necessário para pagar uma despesa.
Família afetada
Quando a aposta resulta em prejuízo, os efeitos atingem toda a casa. Entre as mulheres afetadas pelo próprio jogo ou pelo comportamento de alguém próximo, 24% relatam conflitos familiares e o mesmo percentual aponta perda de confiança. Outros 21% mencionam desgaste emocional.
Além disso, 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem alguma situação em que as apostas contribuíram para episódios de violência familiar. Os relatos incluem agressividade, mentiras, perda de controle e dívidas escondidas.
“O impacto das bets vai muito além da crise financeira e afeta as estruturas familiares. Essa análise mostra que é possível pensar não apenas na contenção da crise, mas na prevenção”, afirma Beatriz.
Publicidade influencia
Entre as mulheres que acessaram sites ou aplicativos de apostas, 79% perceberam um aumento na quantidade de conteúdos sobre jogos exibidos nas redes sociais após o primeiro acesso.
Para 72% das entrevistadas, a publicidade contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam. Além disso, 62% das mulheres apoiam a proibição dos jogos online, ante 50% dos homens.
A pesquisa propõe ampliar o atendimento de saúde destinado a apostadores e familiares, restringir a publicidade e limitar gradualmente algumas modalidades, começando pelos cassinos online.
Os resultados mostram que a presença feminina nas bets não deve ser analisada apenas como uma escolha de lazer. Para parte dessas mulheres, apostar representa uma tentativa arriscada de complementar a renda e cuidar da família. Quando o ganho não vem, porém, são elas que precisam administrar as perdas e tentar fazer as contas da casa fecharem.
Como foi feita
O estudo combinou etapas qualitativa e quantitativa. A primeira ouviu 60 pessoas, principalmente mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E, em oito estados. A segunda entrevistou 2.008 homens e mulheres de todo o país, com distribuição baseada no Censo de 2022 e na PNAD de 2025.

