Enquanto a paternidade ativa for punida, as mães seguirão exaustas
Empresas que dificultam a presença dos pais ajudam a perpetuar a sobrecarga das mães e a desigualdade no trabalho
Muito se fala sobre a exaustão materna no mercado de trabalho, mas quando é que vamos começar a discutir a paternidade exaustiva e o papel das empresas nisso?
Se fizéssemos um exercício de empatia, um verdadeiro “e se eu fosse você” entre mães e pais no ambiente profissional, veríamos que a conta simplesmente não fecha. A verdade é que o apoio e a presença de um pai na rotina familiar fazem uma baita diferença na saúde mental da mãe. Porém, o sistema atual sabota ambos os lados.
O mito da escolha
Jornada dupla, tripla, quádrupla, enésima… Para quem? Tem aquela velha máxima que diz: “Trabalhar fora é uma escolha”. Mas será que todas as mães podem mesmo escolher? E por que os pais escolhem o trabalho sem o mesmo peso de julgamento?
No cenário da maternidade no corporativo, essa suposta escolha ganha contornos ainda mais cruéis:
- entramos na sala de reunião engolindo o choro da culpa;
- monitoramos a febre do filho pelo WhatsApp embaixo da mesa;
- tentamos provar o tempo todo que a licença-maternidade não apagou nossos neurônios.
As pesquisas escancaram o tamanho desse abismo. Dados de consultorias de carreira e relatórios sobre saúde mental corporativa revelam que mais de 60% das mães se declaram no limite do burnout, carregando uma carga mental invisível que nunca zera. Em contrapartida, a porcentagem de mulheres que se dizem plenamente realizadas e não exaustas no trabalho mal chega a 15%.
Paternidade silenciada
E onde entram os homens nessa equação? Aí está a grande miopia do mercado de trabalho. Historicamente cobrados apenas pelo papel de provedores, a estatística dos pais desenha outra dor.
Embora a maioria não relate o esgotamento físico do “trabalho invisível” do lar, um número alarmante de homens se diz profissionalmente frustrado e desconectado da própria família. Eles operam no piloto automático porque o mundo corporativo ainda pune o homem que tenta exercer a paternidade ativa.
A lógica cruel do mercado: para a mãe, a cobrança é para que ela trabalhe como se não tivesse filhos. Para o pai, a exigência velada é de que ele produza como se não tivesse família.
Se o cenário não muda para eles, a sobrecarga materna nunca vai acabar.
Além do crachá
Quando é que as lideranças vão finalmente entender que endossar a paternidade e maternidade de forma equilibrada é a única chave para libertar as mães da exaustão?
Não dá para falar de equidade de gênero no crachá se:
- A promoção da mãe é preterida porque ela “tem restrição de horário”.
- O pai que pede para sair mais cedo para uma reunião escolar é visto como “pouco focado” ou perde espaço para quem aceitou fazer hora extra.
Precisamos humanizar o CNPJ. Apoio paterno não é “ajuda”, é responsabilidade partilhada; mas que só acontece de verdade se a cultura da empresa permitir e incentivar.
Flexibilidade para quem cuida
A flexibilidade corporativa não é um benefício exclusivo para a mãe; é uma ferramenta de sobrevivência para a família.
Enquanto as lideranças tratarem a parentalidade como um tabu ou um problema individual, continuaremos assistindo a um ciclo triste: mães brilhantes abrindo mão de suas carreiras por exaustão, e pais perdendo a infância dos filhos porque o crachá exigiu sua ausência.
Para quem é essa escolha, afinal? No ritmo atual, o CNPJ ganha metas batidas, mas todo mundo em casa está perdendo.
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