Marjane Satrapi: a menina que desenhou a liberdade
A obra de Marjane Satrapi prova que a resistência nem sempre acontece nas ruas: ela também nasce da memória, da arte e da palavra
Primeiro eu preciso dizer.
A convite da Dani Mozer, eu vou escrever periodicamente para o Misses at News. Ser colunista por aqui é sair totalmente da minha zona de conforto; sendo homem, branco, nem de longe sinto todos os desafios enfrentados diariamente por mulheres.
Ninguém lança olhares lascivos para o meu decote, normalmente não sou interrompido ao falar por ser homem, não sou culpabilizado pelo meu próprio estupro por ter usado minissaia. Não tenho útero, ovários ou TPM.
Por isso, escrevo com humildade e respeito, consciente de que minha experiência não é a mesma, mas tenho sensibilidade para entender que a busca por equidade não é uma pauta exclusiva das mulheres: é uma responsabilidade de todos nós.
Espero que minhas reflexões possam contribuir para ampliar o diálogo e fortalecer caminhos que levem a uma presença cada vez maior de mulheres em posições de liderança, influência e decisão.

Cena da animação “Persépolis” e a autora, Marjane Satrapi | Imagem: Divulgação/Reprodução
Punk is not ded
Há dores que gritam. Outras, silenciosamente, desenham. Marjane Satrapi escolheu desenhar.
Quando a Revolução Islâmica transformou o Irã, em 1979, muitos acreditaram estar assistindo ao nascimento de uma nova esperança. Mas a esperança, às vezes, veste a máscara da opressão.
O que começou como a derrubada de um regime autoritário logo se converteu em outro sistema teocrático, que passou a controlar não apenas os corpos, mas também os pensamentos, os sonhos e até os fios de cabelo das mulheres.
Marjane era apenas uma menina. Uma menina que queria entender o mundo. Que conversava com Deus antes de dormir. Que observava os adultos tentando explicar guerras, prisões, censura e desaparecimentos.
Enquanto os homens discutiam revoluções nas praças, ela aprendia que a liberdade podia desaparecer dentro da própria casa.
Foi assim que sua infância foi roubada. Não por um ladrão comum, mas por decretos, dogmas, opressão e medos. De repente, vieram os véus obrigatórios, as patrulhas morais, as proibições. Vieram as listas do que uma mulher podia ou não podia fazer, vestir, ouvir e falar. Vieram as guerras que levavam os jovens para o front e devolviam apenas fotografias emolduradas.
Mas Marjane carregava duas armas perigosas para qualquer autoritarismo: a memória e a capacidade de questionar. Ela viu demais para esquecer. E escreveu. Ou melhor, desenhou.
Nas páginas de “Persépolis”, transformou sua vida em testemunho. Cada traço em preto e branco tornou-se um ato de resistência. Cada quadro revelava algo que regimes autoritários temem profundamente: a humanidade das pessoas que tentam silenciar.
Porque ditaduras sobrevivem de estatísticas. Marjane devolveu nomes, rostos e histórias. Mostrou ao mundo que por trás das manchetes sobre o Irã existiam meninas que ouviam música escondidas, famílias que amavam, jovens que sonhavam e mulheres que se recusavam a desaparecer.
Seu trabalho atravessou fronteiras porque falava de algo universal: a luta para continuar sendo quem se é quando o poder exige que você seja outra pessoa.
Há uma verdade dolorosa em sua trajetória. Ela precisou deixar sua terra para preservá-la dentro de si.
O exílio é uma espécie de luto permanente. A pessoa continua viva, mas uma parte dela fica para trás, presa nas ruas da infância, nos cheiros da cozinha da mãe, nas vozes que já não pode ouvir todos os dias.
Marjane carregou esse peso. Como tantos que foram obrigados a partir para permanecer livres.
E talvez seja justamente por isso que sua obra emocione tanto. Ela nunca escreveu para ser heroína. Escreveu para não esquecer. Escreveu para que outras mulheres soubessem que não estão sozinhas. Escreveu para lembrar que a liberdade não é um presente concedido pelos governantes, mas uma conquista diária de quem se recusa a viver de joelhos.
Hoje, seu legado ultrapassa o universo da literatura e dos quadrinhos. Ele vive em cada mulher que questiona uma injustiça. Em cada jovem que ousa pensar diferente. Em cada voz que se ergue contra o fanatismo, a intolerância e a opressão, em cada regime que quer impor uma única verdade absoluta.
Marjane Satrapi nos ensinou que a coragem nem sempre veste armaduras. Às vezes, ela segura um lápis. E desenha. Desenha até que o mundo finalmente enxergue aquilo que o medo tentou esconder.
Leia mais
+ A visão masculina do casamento
+ O rugido através dos tempos: breve história do empoderamento feminino
As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.


