Quando alguém aposta em você
A diferença entre aconselhar e abrir espaço pode mudar carreiras — e também o modo como entendemos liderança
Há alguns dias, li uma reportagem do Valor Econômico sobre um estudo desenvolvido por duas brasileiras durante o mestrado em Stanford. Elas entrevistaram executivas que alcançaram posições de destaque para entender quais fatores haviam sido decisivos em suas trajetórias.
A conclusão me chamou atenção porque foge do discurso tradicional sobre liderança feminina. Em vez de enfatizar apenas as barreiras enfrentadas pelas mulheres, a pesquisa procurou identificar histórias em que homens e mulheres construíram alianças capazes de transformar a carreira de ambos.
O que mais me chamou atenção foi que nenhuma dessas histórias tinha como ponto central a ideia de “ajudar”. O que existia era algo muito mais profundo: confiança.
Em todos os casos, alguém enxergou potencial antes mesmo que esse potencial estivesse evidente. Alguém decidiu dividir riscos, abrir espaço, compartilhar responsabilidades e apostar em uma parceria cujo resultado ainda era uma incógnita.
Essa reflexão me fez pensar sobre quantas vezes nossas carreiras são moldadas por pessoas que acreditaram em nós antes que estivéssemos completamente prontos.
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Se eu olhar para minha própria trajetória, consigo lembrar de algumas delas. Pessoas que me convidaram para desafios maiores do que eu imaginava ser capaz de assumir. Pessoas que confiaram em mim quando talvez eu mesmo ainda tivesse dúvidas. E acredito que todos nós, quando revisitamos nossa história profissional, encontramos alguém que fez esse papel.
Talvez por isso eu acredite que liderança tenha muito menos relação com autoridade e muito mais com a capacidade de revelar o potencial das pessoas.
Infelizmente, ainda confundimos liderança com comando. Achamos que liderar é orientar, controlar ou ensinar. Tudo isso faz parte do processo, mas existe uma diferença importante entre aconselhar alguém e caminhar ao lado dessa pessoa.
Um mentor oferece direção. Um líder, muitas vezes, oferece oportunidade. Ele coloca seu nome ao lado do seu. Compartilha sua credibilidade. Divide o risco da decisão.
É exatamente aí que nasce o verdadeiro desenvolvimento.
A reportagem cita uma informação interessante. Mulheres costumam ter mais mentores do que patrocinadores dentro das organizações. E essa diferença faz toda a diferença. O patrocinador não é apenas quem aconselha. É quem recomenda seu nome quando você não está na reunião, quem cria oportunidades concretas de crescimento e quem aposta em você antes que os resultados apareçam.
Esse conceito vale para qualquer ambiente, mas ganha uma dimensão ainda maior quando falamos sobre equidade de gênero.
Durante muito tempo tratamos esse tema quase exclusivamente sob a ótica da inclusão, como se criar oportunidades para mulheres fosse uma concessão ou um gesto de boa vontade.
Felizmente essa visão começa a mudar. Cada vez mais entendemos que ambientes diversos produzem melhores decisões, organizações mais inovadoras e empresas mais competitivas. Não é uma pauta das mulheres. É uma pauta de liderança e de negócios.
Talvez seja justamente por isso que gostei tanto da abordagem da pesquisa. Ela não coloca homens e mulheres em lados opostos. Ao contrário, mostra que as relações mais transformadoras foram aquelas em que ambos cresceram juntos.
Quando um líder aposta em uma profissional talentosa, não está apenas impulsionando uma carreira. Está fortalecendo sua equipe, sua organização e, muitas vezes, sua própria trajetória.
Essa lógica vale em qualquer relação profissional. Bons projetos raramente são construídos por pessoas que competem entre si. Eles nascem de gente que compartilha propósito, confiança e responsabilidade.
Penso que essa seja uma das maiores responsabilidades de quem ocupa posições de liderança: identificar talentos antes que eles estejam completamente prontos e criar um ambiente em que possam se desenvolver.
Isso exige coragem. Afinal, apostar em alguém sempre envolve risco.
Mas talvez essa seja justamente a essência da liderança.
Liderar não é esperar que alguém esteja pronto para só então oferecer uma oportunidade. É oferecer a oportunidade para que essa pessoa possa se tornar aquilo que ainda não consegue enxergar em si mesma.
No fim das contas, toda carreira é construída por mérito, dedicação e trabalho. Mas quase sempre existe um momento em que alguém decidiu acreditar em nós antes da prova estar feita.
E talvez o verdadeiro legado de um líder seja exatamente este: fazer pela próxima geração aquilo que um dia alguém fez por nós.
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