Banner publicitário

Só piora: o portal “Respeita as Minas” e a ironia cruel do patrocínio da Fatal Fans

Em vez de rever uma escolha incompatível com a defesa das mulheres, o Corinthians converte a indignação em estratégia de marketing

Banner publicitário

Tem coisas que a gente olha e pensa: “Bom, daqui não tem como piorar”. Aí vem o futebol brasileiro, respira fundo e responde: “Segura minha camisa”.

Quando o Corinthians anunciou o patrocínio da Fatal Fans, uma plataforma associada à prostituição travestida de “conteúdo adulto”, já estava claro que tínhamos cruzado uma linha ética grave. Eu escrevi sobre isso aqui no Misses at News, falando do momento em que o futebol aceita vender corpos como se fossem só mais um ativo de marketing.

Mas o capítulo seguinte conseguiu ser ainda mais cruel. Para tentar amenizar a repercussão, o clube lança, em parceria com a mesma Fatal Fans, um portal chamado “Respeita as Minas”, com discurso de acolhimento e proteção às mulheres.

Não é piada. É estratégia. E é por isso que só piora.

DO ESCÂNDALO AO PLANO DE MARKETING: NÃO CORRIGIR O ERRO, SÓ REEMBALAR

A sequência dos fatos diz tudo.

Primeiro, o clube fecha com uma empresa que lucra diretamente com a exposição sexual de mulheres e a transformação dos seus corpos em produto.

A crítica vem de torcedores, de movimentos de mulheres, de quem ainda se incomoda em ver a camisa de um gigante do futebol virar outdoor de prostituição.

Em vez de rever o patrocínio, o clube responde com um portal de “acolhimento” a mulheres em situação de violência.

Ou seja, não há revisão da decisão, não há autocrítica, não há ruptura com a lógica que causou indignação. Há apenas um novo produto de comunicação, cuidadosamente embalado em palavras bonitas: “equidade de gênero”, “acolhimento”, “conteúdo educativo”.

Não é responsabilidade social. É gestão de crise. E, quando a crise envolve corpos de mulheres e violência, usar a nossa dor como ferramenta de marketing não é só feio, é perverso.

FEMWASHING: QUANDO O “RESPEITO ÀS MULHERES” VIRA DETERGENTE DE IMAGEM

A gente já conhece o greenwashing: empresa que devasta o meio ambiente e, para aliviar a barra, planta meia dúzia de árvores em campanha publicitária.

Agora estamos diante do femwashing: usar a pauta das mulheres, da “proteção”, da “equidade”, como verniz para limpar a imagem de um negócio que, na prática, se apoia numa estrutura de exploração.

O roteiro é sempre parecido: uma marca ou instituição se alia a algo que prejudica mulheres — exploração sexual, padrões violentos de beleza, precarização, objetificação.

A crítica aparece.

A resposta não é mexer no problema de origem, mas criar uma ação “feminina” ou “feminista”: um portal, uma campanha, um produto cor-de-rosa, uma hashtag.

É o mesmo mecanismo que vimos em ações “fofas” como a famosa lâmina de depilação “PPK da Claudia”, da Gillette, vendida como algo descolado, divertido, “sobre autoestima”.

Por trás da piada, mais uma camada de controle do corpo feminino: infantilização do órgão sexual feminino, sempre depilado, sempre pronto, sempre “apresentável”. A mensagem é embrulhada em humor e girl power, mas o controle permanece intacto.

No caso do Corinthians, o femwashing tem um agravante.

Não é só uma marca dizendo para mulheres como elas deveriam aparar seus pelos.

É um clube gigantesco, patrocinado por uma plataforma que monetiza a sexualização de mulheres, posando de guardião da nossa segurança.

É o cúmulo da contradição. Quem ganha dinheiro com a exposição do corpo feminino agora se apresenta como protetor da integridade dessas mesmas mulheres.

O corpo gera lucro. A violência que recai sobre esse corpo gera conteúdo “educativo”. Tudo vira ativo de marca.

O DISCURSO OFICIAL: EQUIDADE, ACOLHIMENTO, CONTEÚDO EDUCATIVO… E MUITA IRONIA 🎭

O texto institucional do Corinthians fala em equidade de gênero, acolhimento e conteúdo educativo sobre violência contra a mulher.

Em teoria, parece ótimo. Na prática, é uma peça de ironia que beira o cinismo.

Porque equidade de gênero não se constrói com um portal, se constrói com as escolhas que você faz antes de assinar um contrato. Acolhimento não é um botão no site, é a mensagem concreta que você passa quando diz que é aceitável financiar o clube com dinheiro que vem da exploração sexual.

E “conteúdo educativo” sobre violência contra a mulher, pago com a mesma verba que lucra com a objetificação dessas mulheres, é quase uma piada pronta.

É como se uma indústria de bebidas que vive de campanhas com “se beber, não dirija” lançasse um portal contra o alcoolismo e quisesse um prêmio de responsabilidade social.

No fundo, o recado implícito é este:

“Vamos usar o sofrimento das mulheres como pauta para mitigar o desconforto causado pelo negócio que lucra com os corpos delas e que paga nossa conta.”

O problema não é falar de violência contra a mulher. O problema é falar de violência contra a mulher sem tocar no fato de que a estrutura que financia o portal colabora com a cultura que alimenta essa mesma violência.

O CINISMO INSTITUCIONAL DO CORINTHIANS

O Corinthians sabe o que representa. Não é um clube qualquer. É símbolo popular, é identidade, é cultura. Justamente por isso, suas decisões de patrocínio têm peso social, político e simbólico. Ao insistir no patrocínio da Fatal Fans e, ao mesmo tempo, lançar um portal chamado “Respeita as Minas”, o clube passa mensagens muito claras.

Para o mercado: “É possível lucrar com exploração sexual e, com uma campanha bem arrumada, se posicionar como aliado das mulheres.”

Para a torcida: “A camisa que carrega o símbolo da sua paixão também pode carregar a marca da objetificação feminina, e isso é normal, é moderno, é business.”

Para as mulheres: “Seu corpo pode financiar a mesma instituição que diz lutar contra a violência que você sofre. E você ainda deve agradecer pelo acolhimento.”

Isso não é descuido semântico, não é falha inocente de comunicação.

É uma aposta consciente na capacidade de transformar um dano em narrativa de cuidado.

E, quando a pauta envolve mulheres sendo mortas, espancadas, estupradas, perseguidas, precarizadas, esse tipo de operação não é só hipócrita, é violenta.

RESPEITAR AS MINAS NÃO É ISSO: O QUE SERIA COMPROMISSO REAL

Se um clube quer, de fato, falar em “respeito às minas”, existem alguns critérios mínimos. E nenhum deles cabe na lógica do “exploro aqui e acolho ali”.

PRIMEIRO CRITÉRIO: DE ONDE VEM O DINHEIRO?

Compromisso real com mulheres começa com um não bastante simples: não aceitar dinheiro de empresas que lucram com exploração sexual.

Se o modelo de negócios passa pela transformação do corpo feminino em produto de consumo, pela venda da intimidade, pela capitalização da vulnerabilidade, esse dinheiro é incompatível com qualquer discurso de proteção.

É duro. É difícil abrir mão de um patrocínio milionário.

Mas ética de verdade dói no orçamento, não só no release.

SEGUNDO CRITÉRIO: OLHAR PARA DENTRO

Um clube que se diz comprometido com mulheres precisa enfrentar o machismo onde ele é mais confortável: nas piadas de vestiário, no assédio em arquibancadas e espaços do estádio, nas violências contra funcionárias, jogadoras e jornalistas.

Vamos de “Leilices” novamente. Políticas internas claras contra assédio e violência doméstica envolvendo atletas, dirigentes e funcionários. Canal real e independente de denúncia, com consequência prática.

Treinamentos e formação continuada em gênero e violência para todo mundo, do elenco ao staff.

Portal nenhum substitui a coragem de mexer nesse vespeiro.

TERCEIRO CRITÉRIO: PROTAGONISMO DAS MULHERES

Falar de “Respeita as Minas” exigiria ouvir jogadoras, ex-jogadoras, torcedoras e funcionárias. Colocar mulheres em posição de decisão dentro do clube.

Construir ações com mulheres, e não apenas para mulheres.

Quando o protagonismo está na marca, e não nas mulheres afetadas, o que temos não é política de gênero, é projeto de marketing.

Um portal patrocinado por quem lucra com nudez vendida não é política pública, não é política de clube, não é projeto feminista.

É um produto. E produto tem objetivo claro: preservar imagem e receita.

QUARTO CRITÉRIO: MEDIDAS CONCRETAS

Um portal de apoio a mulheres poderia ser algo importante se viesse de outro lugar. Para ter credibilidade, ele precisaria estar ligado a parcerias com redes de abrigos, defensorias públicas, serviços de saúde e assistência social.

Também precisaria de transparência: orçamento, origem do financiamento, metas e avaliação independente.

Além disso, seria necessário um compromisso público do clube de rever patrocínios incompatíveis com a proteção de mulheres. Sem isso, o portal fica parecendo exatamente o que é: um escudo simbólico para uma escolha que não se quer revisar.

RESUMO DA PELEJA: SÓ PIORA!

E é por isso que a gente não pode se calar.

O Corinthians poderia ter feito o mínimo: reconhecer o erro, desfazer o patrocínio, admitir que há fronteiras éticas que não podem ser atravessadas, mesmo em tempos de futebol hipermercantilizado.

Em vez disso, escolheu outro caminho. Não consertou a prática, apenas revestiu a imagem. Mantém o dinheiro da exploração, mas encaixa, por cima, um discurso de proteção.

Essa é a essência de tudo que estamos chamando aqui de femwashing: usar nossa pauta, nossa dor e nossas lutas como cosmético para manter intacta a estrutura que nos prejudica.

Respeitar as minas não é abrir um portal, não é criar conteúdo, não é inventar slogan.

Respeitar as minas começa por não vender as minas.

Enquanto o Corinthians, e tantos outros, insistirem em transformar nossos corpos, nossas feridas e nossas lutas em peça de marketing, seguir falando será não só um direito, mas uma obrigação. Porque o silêncio, nesse cenário, não é neutralidade, é cumplicidade.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

Banner publicitário

Dani Mozer

Dani Mozer é publicitária de coração, DPO, e agora colunista, com 20 anos em mídia e marketing digital, fundadora da Content Lovers Digital e cofundadora do Misses at Work.

Ler Mais