Errei, mas quem não erramos?
Errar faz parte, mas o custo do erro não é igual para todo mundo; veja o que a psicologia ensina sobre gênero e imperfeição
Existe uma ideia tóxica de que profissional que se preza não erra. Essa ideia deve ter sido inventada por alguém que nunca teve que cumprir um prazo na vida.
A verdade é que, dizem as más línguas, errar é a segunda atividade mais comum na comunicação – perdendo apenas para “acertar sem querer” e “descobrir algo melhor no meio do erro”.
Nesta semana, duas Misses mudaram de empresa ou de área (as maravilhosas Paula Gastaldelli e Naty Pellizon). Comemoramos, destacamos na newsletter e… enviamos o e-mail teste, antes da revisão. E o texto foi para o éter, com informações completamente trocadas. Errei, mas quem não erramos, como diz o manual da Folha de S.Paulo (que inspirou o título e a ilustração deste conteúdo).
E resolvemos, é claro, assumir e corrigir o mais rápido e eficientemente possível. Mas por que alguém tentaria esconder um erro que pode acontecer até nas melhores famílias?
Custo com viés de gênero
Porque tem uma camada a mais nessa história, e ela importa muito para a mulherada de qualquer mercado de trabalho: nossos erros custam mais caro.
Estudos mostram que mulheres (e minorias) são punidas de forma desproporcionalmente maior por erros do que homens. Um deles, publicado no Journal of Political Economy, calculou que assessoras financeiras têm 20% mais chance de ser demitidas por má conduta e 30% menos chance de se recolocar depois. Já uma pesquisa da Universidade do Alabama apontou que CEO mulheres tinham 45% mais chance de ser demitidas do que CEOs homens.
(Esta matéria do Fórum Econômico Mundial, de 2019, traz pesquisas que mostram a desigualdade em diferentes contextos: na escola, na política, na medicina…)
Talvez por isso — e por inúmeros outros mecanismos de socialização que a gente conhece bem — mulheres tendam a assumir e corrigir erros com mais rapidez. Elas também tendem a assumir mais responsabilidade por suas ações e se autocriticar mais, o que geralmente significa que se culpam pelos resultados negativos.
Só no viezinho
Nos homens, o mecanismo costuma funcionar ao contrário. A psicologia tem nome para isso: viés de autoserviço (self-serving bias) — a tendência de atribuir os próprios sucessos a mérito pessoal e os fracassos a fatores externos. Homens são mais propensos a exibir esse viés do que mulheres. Na prática: quando dá certo, foi talento. Quando dá errado, foi o prazo, foi a plataforma, foi o cliente, foi o cachorro… Até garantir que o erro foi proposital é prática recorrente (mas isso é assunto pra outra coluna).
Homens tendem a ser mais autoconfiantes e a valorizar mais a autoimagem, sendo mais propensos a atribuir situações negativas a fatores externos para preservar essa imagem. Traduzindo do academês: a admissão de erro é sentida como ameaça à identidade. E ameaças à identidade, o ego trata de neutralizar.
Ou seja: mulheres assumem mais seus erros e os corrigem mais rápido em parte porque aprenderam, de formas muito concretas, que o custo de não corrigir é maior para elas. O erro tem preço. E esse preço não é cobrado igualmente.
De volta ao nosso erramos
Quando o erro acontece, você tem basicamente duas opções: racionalizar (“ninguém vai notar”, “o sentido ficou claro de qualquer forma”, “foi proposital”) ou corrigir, com transparência e sem drama.
Reconhecer o erro é um ato de respeito — com quem lê, com o personagem, com o mercado. Uma errata não enfraquece uma publicação. Ela mostra que há alguém responsável do outro lado.
E tem um bônus: errar, reconhecer e seguir em frente é exatamente o ciclo que leva a fazer melhor. Não o ciclo de flagelação infinita (que, diga-se, também é mais comum em mulheres), nem o ciclo da negação. O ciclo simples: vi, assumi, corrigi, aprendi. E o que aprendi? A não pular etapas, a respeitar meu tempo e a acreditar no processo.
Foi proposital? Não. Vai acontecer de novo? Provavelmente. A gente vai corrigir? Sempre.
4 razões para não se martirizar depois de errar
- Erro obriga melhoria Quando tudo sai “certo”, a gente raramente revisa processo. O erro força olhar para trás — e é aí que nasce a melhoria.
- Erro gasta menos energia que perfeição Esperar o texto, a ideia ou a campanha imaculada custa caro em tempo e ansiedade. Errar rápido, corrigir e publicar de novo é mais negócio do que nunca publicar.
- Erro humaniza Numa época de IA e polimento extremo, uma admissão de erro sincera é quase revolucionária, e faz tudo parecer mais humano (mesmo que o erro tenha o dedo da IA).
- Erro também traz inovação Grandes invenções vieram de “acidentes”: post-its, micro-ondas, penicilina. Pequenos erros de rota, quando aproveitados, viram desvios criativos.
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