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Quando o futebol aceita vender corpos: Corinthians, Fatal Fans e o preço da camisa

Ao associar sua imagem a uma plataforma de conteúdo adulto, o clube legitima um mercado atravessado por desigualdade, objetificação e violência contra mulheres

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Em 2026, o Corinthians decidiu estampar no seu uniforme o nome da Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto ligada ao grupo Fatal Model, conhecido por seus anúncios de acompanhantes. O contrato, válido até o fim de 2027, foi apresentado pelo clube como um “acordo histórico”, um avanço comercial, quase um troféu fora de campo.

Mas por trás dessa bizarra celebração do contrato está um incômodo que não deveria ser descartado com facilidade: o que significa, para o esporte brasileiro, vincular um dos maiores clubes do país a um negócio cuja lógica central é a oferta de corpos, em grande parte corpos femininos, em catálogo e em conteúdo sexual pago?

Não estamos falando apenas de direito comercial ou liberdade de mercado. Estamos falando de responsabilidade social, de imaginação coletiva, de que tipo de sociedade se constrói quando o futebol, essa linguagem nacional que chega a crianças, jovens e famílias de todas as classes, se torna vitrine oficial para a mercantilização da intimidade.

A oferta massiva de patrocínios de casas de aposta no futebol, com sua linguagem por vezes amoral dentro das regras de comunicação, parece ter aberto as portas do absurdo. Depois das bets, que lucram com risco e vulnerabilidade financeira, agora chegamos às plataformas que lucram com o corpo.

E, antes que alguém tente encerrar o debate com a desculpa pronta de que “só conservadores veem problema nisso”, vale um esclarecimento: eu não sou conservadora. E justamente por não ser, me recuso a aceitar a ideia de que questionar esse patrocínio é moralismo barato. Há críticas que nascem não de medo da sexualidade, mas da recusa em normalizar exploração, desigualdade e banalização de corpos.

1. Banalização dos corpos femininos

Colocar a Fatal Fans no uniforme do Corinthians não é um ato neutro. O futebol não é um outdoor qualquer, é um palco de escala nacional que mobiliza paixões, identidades e valores. Tudo que entra nesse palco ganha uma camada extra de legitimidade.

No imaginário social, o grupo Fatal Model não é um aplicativo genérico. É uma estrutura que associa mulheres e outros corpos à disponibilidade sexual mediante pagamento, seja por anúncio de acompanhantes, seja por conteúdo adulto. Ao vincular esse universo ao clube, o patrocínio converte o corpo feminino em elemento de branding, reforça a ideia de que o corpo da mulher é um produto e um serviço, e traz para o centro do espetáculo esportivo o princípio de que intimidade se compra e se vende.

A repetição dessa marca em campo, rodada após rodada, produz algo que parece sutil, mas é profundo: retira o choque. O que deveria nos causar estranhamento ético passa a ser visto como mais um logo entre tantos outros. Quando o incômodo desaparece, instala-se a banalização. A objetificação da mulher vira parte do “pacote” cultural do futebol. A mulher passa a ser tratada como objeto de desejo masculino e não como sujeito de direitos. As vulnerabilidades e violências que atravessam a indústria do sexo são apagadas e reapresentadas como “negócio moderno”, como “plataforma tech” e “inovação digital”.

Não é só uma marca na camisa. É uma mensagem sobre o lugar da mulher na narrativa pública do esporte. E, mais especificamente, sobre o lugar da mulher na narrativa pública desse time.

2. Estímulo à prostituição sob a máscara de “plataforma de acompanhantes”

Os defensores da parceria gostam de enfatizar que se trata de um produto “legalmente constituído”, que atua “dentro da lei” como classificados de anúncios, não como intermediação direta. A legalidade, porém, não esgota a discussão. Ter CNPJ não é sinônimo de neutralidade ética.

Patrocínio é publicidade. Quando o Corinthians veste a Fatal Fans, o clube amplia o alcance da plataforma, confere a ela um selo de respeitabilidade institucional e potencializa o fluxo de usuários, tanto clientes quanto pessoas oferecendo seus corpos. A mensagem implícita é clara: esse é um negócio considerado legítimo, respeitável, digno de ocupar espaço nobre no uniforme de um gigante do futebol.

A prostituição e o conteúdo sexual pago, que deveriam ser discutidos à luz de vulnerabilidades, desigualdades e falta de oportunidades, são reinterpretados como serviço premium, produto digital, revolução de mercado. Falar de liberdade individual é importante, e ninguém está negando que existam pessoas adultas que escolhem trabalhar com sexo. Mas, quando um clube com o poder simbólico do Corinthians se torna garoto-propaganda desse mercado, não está apenas legitimando escolhas individuais. Está contribuindo para empurrar, na cultura de massa, a ideia de que prostituição e conteúdo sexual são apenas mais um estilo de vida glamouroso, sem enfrentar a precariedade material que empurra muitas mulheres para essa rota, os riscos de violência, coação e tráfico, os estigmas que dificultam qualquer transição para outras formas de trabalho e os impactos emocionais e psíquicos de um trabalho que, muitas vezes, não nasce de desejo, mas de necessidade.

Transformar tudo isso em “case de marketing esportivo” é escandaloso, não porque a sexualidade seja tabu, mas porque a desigualdade não deveria virar peça de publicidade.

3. O que perde um clube de futebol quando ganha esse tipo de patrocínio?

A resposta que vem da gestão costuma ser simplista: o clube precisa de dinheiro. Mas clubes não são apenas empresas que buscam lucro. São instituições culturais, afetivas e políticas. São parte da memória e da identidade coletiva de milhões de pessoas. Quando escolhem um patrocinador, não escolhem apenas a origem dos recursos. Escolhem também um conjunto de valores aos quais se associam.

O Corinthians se apresenta como “time do povo”, símbolo de luta, resistência e mobilização popular. Ao se associar a uma marca ligada à prostituição e ao conteúdo adulto, o clube cria uma fissura abissal entre discurso e prática. Comunica às suas torcedoras, mulheres, meninas, mães corinthianas, que os seus corpos podem ser reduzidos a negócio sem que isso seja considerado problema.

O que mais dói é ler a defesa do clube a partir de uma narrativa em que o dinheiro vale mais do que qualquer compromisso ético com dignidade humana. O futebol é um espaço de formação social. Ali se aprendem modelos de masculinidade, modos de se relacionar com o outro, leituras de mundo. Quando um patrocinador que ganha dinheiro com a oferta de corpos se instala no uniforme, o que se normaliza é uma forma de olhar para a sexualidade e para as mulheres que combina mercantilização com desejo masculino, sem espaço para autonomia real e justiça social.

É como se voltássemos à era das propagandas sexistas de cerveja, só que agora com um apelo ainda mais humilhante. Não é insinuação; é anúncio direto de mercado sexual.

Responsabilidade social não é detalhe. Não é novidade que clubes recusam patrocinadores por questões estratégicas, como incompatibilidade com a marca ou com seus objetivos. Nada impede que essa mesma lógica seja aplicada a critérios éticos. Ao aceitar a Fatal Fans e o universo Fatal Model, o Corinthians abre mão de usar seu espaço para promover causas sociais, educativas ou de valorização de mulheres e escolhe, entre todas as empresas possíveis, justamente uma cujo modelo de negócio se baseia em transformar pessoas em oferta.

A mensagem é transparente: desde que pague bem, quase qualquer coisa pode ser estampada na camisa. Essa decisão não é inevitável, é escolha. E escolhas têm custos simbólicos e morais.

4. Futebol, machismo e mercado: um combo perigoso

O ambiente do futebol já nasce marcado por machismo estrutural. Basta olhar para a dificuldade histórica de mulheres ocuparem espaços de poder no esporte, para a maneira como torcidas se referem a mulheres em cânticos e xingamentos, para a presença constante de figuras femininas como “musa”, “bela da torcida” ou acessório decorativo em coberturas esportivas.

Às vésperas de uma Copa Feminina Mundial em 2027, inserir nesse contexto uma plataforma ligada à prostituição e ao conteúdo adulto como patrocinadora oficial de um grande clube não é acidental. É funcional a um imaginário em que a mulher é acessório, não protagonista, em que o corpo é recompensa, em que o sexo é algo que o homem consome e a mulher fornece.

Em vez de aproveitar a força simbólica do futebol para confrontar esse machismo, abrindo espaço para narrativas de respeito, inclusão e valorização de mulheres, o clube reforça o cenário em que as mulheres continuam sendo pano de fundo de uma cultura centrada no desejo masculino.

5. Não é “conservadorismo”, é coerência ética

Diante de qualquer crítica, surge rapidamente o contra-ataque: quem reclama é conservador, é moralista, é ultrapassado. Essa estratégia é conveniente porque dispensa o trabalho de responder ao conteúdo do argumento. Basta colar um rótulo e seguir o jogo.

O problema dessa narrativa é que ela é intelectualmente preguiçosa. Há pessoas progressistas, feministas e libertárias em costumes que se incomodam profundamente com esse patrocínio. Não porque desejem controlar a vida sexual dos outros, mas porque entendem que liberdade sexual não pode ser confundida com liberdade de explorar vulnerabilidades. Também compreendem que emancipação feminina não combina com transformar mulheres em catálogo para consumo massivo e em mais um “produto” de entretenimento.

O esporte, como espaço de formação de valores, tem responsabilidade com a dignidade de quem o acompanha, e não apenas com o lucro. Eu mesma não sou uma conservadora em costumes.

Confesso que, com a liderança de Leila Pereira no Palmeiras, eu acabei de virar palmeirense. Há algo de poderoso em ver uma mulher ocupar com firmeza a presidência de um grande clube, conduzir projeto, estratégia, competitividade e provocar, com isso, a ampliação de espaços para o feminino, inclusive no jornalismo esportivo. Essa admiração pela presença de uma mulher forte na liderança torna ainda mais evidente o contraste com decisões como as do Corinthians. Se o futebol pode avançar em representatividade e profissionalização, por que insiste, ao mesmo tempo, em se associar a modelos de negócio que reforçam a velha lógica do corpo feminino como mercadoria?

Leila Pereira abraçou, por exemplo, uma parceria do clube com a Secretaria de Segurança Pública, com iniciativa de reconhecimento facial no estádio para identificar e prender torcedores com mandados de prisão ativos por falta de pagamento de pensão alimentícia. Isso é usar tecnologia e poder institucional para enfrentar diretamente uma forma de violência econômica contra mulheres e crianças.

Admirar uma boa liderança não significa romantizar o clube. Pelo contrário, quanto mais respeitamos a força do esporte, mais precisamos cobrar coerência. Não basta colocar mulheres em cargos de poder se, ao mesmo tempo, aceitamos que a narrativa dominante em torno da feminilidade continue baseada em disponibilidade sexual, consumo e fetichização.

6. O que o esporte poderia estar patrocinando em vez disso?

A questão não é apenas “pode?”. A pergunta certa é “deveria?”. Se um clube de futebol tem o poder de colocar uma marca diante de milhões de pessoas, então também tem o poder, e a responsabilidade, de escolher que tipo de mundo está promovendo.

Em vez de normalizar a prostituição e o conteúdo adulto como “mercado cool”, o futebol poderia vincular seu espaço nobre a projetos de educação e cultura em periferias, iniciativas de combate à violência contra a mulher, empresas comprometidas com diversidade, inclusão e sustentabilidade e plataformas que ampliem acesso a conhecimento, saúde ou bem-estar.

O argumento de que “todo dinheiro é bem-vindo” é míope. Cada patrocínio carrega significados. E quando o campo é tão grande quanto o de um clube como o Corinthians, esses significados se espalham rapidamente para o imaginário de uma nação inteira.

Conclusão: nem tudo que paga, presta

O patrocínio da Fatal Fans, ligada ao grupo Fatal Model, ao Corinthians não é uma simples estratégia de marketing esportivo. É um sintoma de algo maior: o quanto estamos dispostos a vender não só espaço na camisa, mas valores, símbolos e corpos, em nome de contratos milionários.

Ao estampar uma empresa ligada à prostituição e ao conteúdo sexual pago, o clube banaliza corpos, reduzindo-os a produtos que podem ser exibidos sem questionamento. Estimula, pela via da legitimidade institucional, a naturalização da prostituição e da exploração sexual como entretenimento aceitável, sem enfrentar suas raízes de desigualdade. Perde densidade simbólica e se afasta de qualquer projeto de esporte comprometido com inclusão, respeito e dignidade.

Não é necessário ser conservadora para ver problema nisso. Basta recusar que o futuro do futebol seja um lugar em que qualquer forma de exploração possa ser rebatizada de “inovação” se vier acompanhada de um bom cheque. O esporte brasileiro merece mais do que transformar o corpo da mulher em peça de uniforme. E nós, como sociedade, merecemos mais do que a lógica de que tudo se compra, inclusive aquilo que nunca deveria ter preço.

 


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Dani Mozer

Dani Mozer é publicitária de coração, DPO, e agora colunista, com 20 anos em mídia e marketing digital, fundadora da Content Lovers Digital e cofundadora do Misses at Work.

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