20 anos da Lei Maria da Penha & Agosto Lilás: o que a comunicação tem a ver com isso
Duas décadas após a criação da lei, números de violência e assédio reforçam a responsabilidade de empresas e marcas dentro e fora do trabalho
A celebração dos 20 anos da Lei Maria da Penha marca duas décadas de avanços legislativos no combate à violência contra a mulher. No entanto, os números mostram que a proteção à mulher ainda enfrenta lacunas profundas quando transita da esfera privada para o ambiente corporativo, especialmente em setores de alta pressão, como o de comunicação, marketing, publicidade e mídia.
Quando analisamos as estatísticas mais recentes, fica evidente que a violência não atua de forma isolada: ela afeta a saúde mental, a permanência no emprego, a ascensão profissional e a dignidade das trabalhadoras.
A violência chega ao trabalho
De acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado), 34% das brasileiras relataram ter sofrido ao menos um tipo de violência (física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual).
Essas agressões não terminam dentro de casa. Uma análise divulgada no início de 2026 sobre dados de saúde corporativa mostrou que os afastamentos do trabalho por mulheres vítimas de agressão cresceram 152% no Brasil entre 2023 e 2025. A grande maioria desses afastamentos (85%) está diretamente ligada a agressões físicas.
A violência doméstica acompanha a profissional até a sua estação de trabalho, refletindo-se em absenteísmo, perda de renda e isolamento.
O assédio persiste
Quando olhamos para a rotina dentro das empresas, o assédio moral e sexual surge como uma barreira crônica:
- 76% das brasileiras já sofreram algum tipo de violência ou assédio no ambiente de trabalho, segundo estudo do Instituto Patrícia Galvão / Locomotiva;
- o estudo Trabalho Sem Assédio (Think Eva / LinkedIn) aponta que 35% das trabalhadoras já foram vítimas de assédio sexual no trabalho;
- a cultura do silêncio: apenas 10% das vítimas recorrem a canais formais de denúncia nas empresas, e 1 em cada 6 profissionais decide pedir demissão após episódios de assédio.
E nas agências?
No ecossistema de comunicação, marketing e mídia, a dinâmica de prazos curtos, demandas urgentes e estruturas hierárquicas rígidas tende a mascarar e normalizar comportamentos abusivos.
Pesquisas realizadas no mercado publicitário expõem estatísticas alarmantes:
- em levantamento do Grupo de Planejamento sobre o mercado de comunicação de São Paulo, 90% das comunicadoras declararam já ter sofrido algum tipo de assédio (moral ou sexual) em agências de publicidade;
- na mesma pesquisa, 51% das profissionais afirmaram ter sofrido assédio sexual no ambiente de trabalho;
- pesquisas regionais do setor, como a realizada pela agência TagZag no Nordeste, corroboram o cenário: 71% das publicitárias na região relataram ter sido vítimas de assédio.
Sinais de violência psicológica ou velada muitas vezes são minimizados pelo mercado corporativo como “burnout”, “estresse de entrega” ou “pressão normal do atendimento”.
Dos dois lados
O mercado criativo e comunicacional não é apenas um local de trabalho; é um agente de transformação social. A responsabilidade do setor divide-se em dois pilares:
Portas para dentro
Agências e departamentos de marketing precisam sair da neutralidade. Isso significa implementar canais de denúncia verdadeiramente anônimos e independentes, oferecer suporte jurídico e psicológico para funcionárias em situação de vulnerabilidade e treinar lideranças para acolher e intervir com rigor.
Portas para fora
Comunicação cria comportamento. Marcas e veículos de mídia têm o poder e a obrigação de vetar campanhas que objetifiquem mulheres ou normalizem dinâmicas abusivas. Além disso, podem usar seus espaços publicitários para informar e direcionar a população para os canais formais de apoio, como o Ligue 180.
Da consciência à prática
Os 20 anos da Lei Maria da Penha e a campanha do Agosto Lilás reforçam que combater a violência contra a mulher é um compromisso contínuo e coletivo. Garantir que as profissionais da comunicação e de todos os setores atuem em ambientes seguros, éticos e acolhedores não é um benefício opcional; é um requisito básico para a sustentabilidade de qualquer mercado.
Canais de apoio
Se você está passando por uma situação de violência ou conhece alguém que precisa de ajuda, ligue 180. A Central de Atendimento à Mulher é gratuita, confidencial e funciona 24 horas por dia.
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