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Empresas apostam pesado em IA, mas 74% delas ainda não notam impacto nos negócios

Pesquisa da Deloitte revela que 84% das empresas aumentaram investimentos em IA — mas só 20% provam impacto financeiro real

Três quartos das organizações esperam que a inteligência artificial impulsione o crescimento da sua receita. Só uma em cada cinco consegue provar, com números, que isso está acontecendo. O dado é do relatório “The State of AI in the Enterprise”, da Deloitte, e resume bem o momento em que o mercado corporativo se encontra: todo mundo entrou na corrida, mas poucos chegaram a algum lugar.

A pesquisa ouviu 3,2 mil líderes de negócios e tecnologia ao redor do mundo ao longo de 2024, e o retrato é o de uma aposta coletiva que ainda não se pagou. Não porque a tecnologia não funcione, mas porque adotar IA e transformar isso em resultado mensurável são dois processos completamente diferentes —e as empresas ainda estão aprendendo a diferença.

A febre da IA e a conta

Os números de adesão impressionam: 84% das organizações aumentaram seus investimentos em IA no último ciclo. O acesso de trabalhadores à tecnologia cresceu 50% em um único ano. E 78% dos líderes dizem ter mais confiança na IA hoje do que há doze meses. No papel, é uma adesão quase unânime.

Mas confiança não é resultado. Quando o relatório vai além da intenção e pergunta pelo impacto concreto, o cenário muda: apenas 30% das empresas estão de fato redesenhando seus processos centrais em torno da tecnologia; as outras avançam na margem, testando ferramentas sem mudar a estrutura.


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Outros 37% utilizam a IA de forma ainda mais periférica, sem integração real ao negócio. Ou seja, mais da metade das organizações que dizem investir em IA ainda não passou da fase de experimentação.

Adotar não é o mesmo que transformar

Isso tem consequências práticas. Sem redesenho de processos, a IA opera como camada sobre o que já existe — e o impacto fica limitado. É o que os números de retorno revelam: a maioria investe, poucos transformam, quase ninguém consegue ainda demonstrar onde o dinheiro voltou.

O horizonte da automação complica ainda mais a equação. Hoje, 36% das empresas esperam que ao menos 10% de seus postos sejam totalmente automatizados dentro de um ano, uma projeção que, se confirmada, representa uma mudança estrutural no mercado de trabalho em curtíssimo prazo.

Em três anos, esse número sobe para 82%. A velocidade das expectativas contrasta com a lentidão dos resultados: as empresas projetam transformação acelerada enquanto ainda estão aprendendo a usar as ferramentas que já têm.

Corrida com obstáculos

O relatório da Deloitte analisa empresas que já investem em tecnologias e serviços de IA. Mas para uma parcela significativa de empreendedores no Brasil, o desafio é ainda anterior: o acesso a essas ferramentas.

Cynthia Paixão, fundadora da plataforma de negócios Afrocentrados Hub | Aria Santana Studio (Divulgaçnao)

Não por falta de interesse, mas por falta de crédito que viabilizaria o investimento. Segundo o Sebrae, 48% dos empreendedores negros apontam o crédito como sua maior barreira — e, entre os que buscaram empréstimo, apenas 10% conseguiram o valor solicitado integralmente.

Para Cynthia Paixão, CEO e fundadora da Afrocentrados Hub, dominar essas ferramentas é uma questão de equidade, não só de eficiência. “Ao dominar essas tecnologias, os afroempreendedores conseguem ganhar escala, melhorar posicionamento e competir em um mercado global cada vez mais orientado por plataformas digitais. No longo prazo, isso contribui para reduzir desigualdades estruturais no acesso a mercado e ampliar a participação de negócios negros na economia”, afirma.

A Afrocentrados Hub é uma plataforma brasileira que integra inteligência artificial e estratégias digitais a um ecossistema voltado para empreendedoras e empreendedores negros.

Iniciativa necessária numa realidade em que 61% desses empreendedores trabalham sozinhos, segundo a Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil — o que limita ainda mais a capacidade de investir em automação e novas tecnologias.

O que esperar num futuro próximo

O relatório da Deloitte não é um diagnóstico de fracasso, mas um mapa de uma transição ainda em curso. Que a IA está sendo adotada em escala ninguém nega. O que ainda não está claro é se a as organizações sabem exatamente o que querem com ela.

Para os líderes ouvidos pela pesquisa, o próximo ciclo será decisivo: é preciso demonstrar retorno concreto dos investimentos, ou vai se tornar cada vez mais difícil justificá-los internamente.

Essa corrida está em andamento há alguns anos. Mas a fase em que é preciso provar que valeu a pena está só começando.


Redação

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