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Mulheres negras recebem 59% da renda dos homens e têm até 3 vezes mais chance de viver sem saneamento

Pesquisa inédita desenvolvida pelo NUPEMN, núcleo de pesquisa do Fundo Agbara, revela desigualdades persistentes em renda, trabalho e moradia e no Brasil

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A economia brasileira pode até registrar avanços em indicadores gerais, mas quando o recorte cruza raça e gênero, a realidade nacional mostra sua face mais cruel. É o que comprova o inédito Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), lançado recentemente pelo Fundo Agbara em parceria com a Fundação Volkswagen e a ActionAid.

Desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (NUPEMN), o estudo cruzou dados nacionais entre 2016 e 2023 baseados na PNAD Contínua do IBGE e no Ipea. O diagnóstico é definitivo: as mulheres negras continuam ocupando a base da pirâmide socioeconômica.

Os números mostram que as mulheres negras receberam, em média, apenas 59% do rendimento dos homens. Quando a comparação é feita diretamente com os homens brancos, elas vivem com praticamente metade da renda domiciliar per capita: R$ 1.191,66 contra R$ 2.381,43.

A herança do cuidado

No mercado de trabalho, as mulheres negras seguem mais expostas à informalidade e ao desemprego. Em 2023, a taxa de desocupação desse grupo era de 10,8%, mais que o dobro da registrada entre homens brancos, de 4,8%. Apenas 33,3% das mulheres negras possuíam carteira assinada no setor privado no ano passado, índice inferior ao observado entre mulheres brancas (37,4%) e homens brancos (40,4%).

A pesquisa evidencia uma permanência histórica da divisão racializada do trabalho:

Racismo ambiental

O estudo vai além do bolso e analisa as condições de habitação e saneamento básico, trazendo à tona o conceito de racismo ambiental — que explica como as populações negras e periféricas são as mais afetadas pela ausência de infraestrutura urbana e crises climáticas.

A desigualdade no acesso à dignidade é assustadora: mulheres negras têm até 3 vezes mais probabilidade de viver em casas sem banheiro do que as mulheres brancas. Cerca de 31,6% delas habitam locais com esgotamento sanitário precário e têm o dobro de exposição ao descarte de esgoto em valas abertas.

Essa precariedade se estende para os eletrodomésticos básicos que facilitam a rotina. Em pleno ano de 2023, 37% das mulheres negras não tinham máquina de lavar roupa em casa, em comparação a apenas 15% das mulheres brancas.

“Mesmo com avanços recentes em acesso a direitos e políticas focalizadas, quando analisamos as desigualdades a partir de uma perspectiva multidimensional, as mulheres negras continuam muito abaixo do que podemos esperar enquanto sociedade”, alerta Priscila Soares, coordenadora de pesquisa do Fundo Agbara.

Para os realizadores do estudo, indicadores tradicionais de mercado — como o PIB ou o IDH isolados — falham em capturar esse abismo estrutural. O verdadeiro desenvolvimento econômico do país só começará a acontecer quando o conceito de Bem Viver (direito ao território, cuidado, saneamento e renda justa) alcançar, prioritariamente, as mulheres negras.

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Redação

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