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Autoral de verdade: o que a Feira na Rosenbaum nos ensina sobre design e memória

Com o tema "Memórias", feira comandada por Cris Miranda Rosenbaum reúne mais de 80 expositores em edição que celebra trajetórias e processos criativos

Design autoral virou selo de qualidade, palavra de ordem, argumento de venda. Estampado em etiquetas, embalagens e releases, o termo hoje serve tanto para descrever uma peça única esculpida à mão no interior do Brasil quanto um copo de plástico repaginado com hype. No meio desse ruído todo, poucos conseguem explicar o que separa um objeto com história de uma história bem contada.

Cris Miranda Rosenbaum é uma dessas pessoas. Há 16 anos, ao lado do arquiteto Marcelo Rosenbaum, ela reúne na Feira na Rosenbaum os criadores que fazem design com processo, discurso, identidade e, principalmente, com a mão na massa.

“No fundo, todo design é autoral, porque sempre tem alguém criando. A diferença, pra gente, está na consistência. A gente busca coerência entre discurso, processo e resultado. Não é sobre julgar o que é bom ou ruim. É sobre afinidade. Sobre marcas que fazem sentido dentro daquilo que a feira acredita e constrói há 16 anos”, diz Cris.

É no icônico edifício da antiga Telesp, no centro de São Paulo, que essa visão ganha corpo. Num dos salões tombados, um móvel enorme da época da Telesp, “uma central analógica de comunicação”, como descreve Cris, ainda preserva botões e conexões.

A feira decidiu incorporá-lo à instalação dos artistas. A memória do prédio e a memória do design brasileiro se encontram e, no meio delas, está o que realmente importa: não o produto pronto, mas o processo, o erro, a história.


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Ocupação afetiva

A escolha do endereço não é casual. A ocupação reforça a ressignificação da região central, que se firma como território da economia criativa. O edifício Basílio 177, antigo 7 de Abril, fica no coração do chamado “quadrilátero do design” paulistano, que inclui Copan, Galeria Metrópole e Boulevard São Luís, carrega em suas paredes as camadas de uma São Paulo em constante transformação. Para Cris, a arquitetura do espaço é mais do que cenário: é parte da narrativa.

“Essa foi uma das coisas que mais animou a gente nesse espaço. Ele já chega com uma carga histórica muito forte. Um dos salões, justamente onde vai acontecer a exposição Memórias e a Casa Alma Brasileira, é tombado. O prédio passou por retrofit, mas esse salão preserva muitos elementos originais”, diz Cris.

“Não é só ocupar o espaço, é dialogar com ele. Parece que a memória do prédio e a memória da feira se encontraram ali”, completa.

Essa sobreposição de memórias — do lugar, dos objetos, das pessoas — é o fio condutor da edição. E ganha contorno afetivo quando se olha para a própria trajetória da feira.

Os filhos pródigos

São 16 anos de existência e uma década ininterrupta integrando a programação da DW! Semana de Design de São Paulo. Nesse percurso, a Rosenbaum não apenas revelou talentos, mas viu alguns deles crescerem, ganharem o mundo e agora voltarem para casa. Nomes como Áurea Sacilotto, Greghi Design, MOA, Montage Art, Nicole Toldi, Nina Lima, Paola Muller, Suka Braga, Thais Costa e Evelyn Tannus, participante desde as primeiras edições.

“A gente já queria fazer uma edição especial trazendo nomes que começaram com a gente lá atrás, desde que completamos 10 anos. Agora finalmente conseguimos”, diz Cris. “O mais bonito é que não são ‘nomes distantes’ — são pessoas próximas, amigas, que a gente acompanha até hoje. Ver essas trajetórias ganhando o mundo e saber que a feira fez parte desse começo é muito emocionante.”

O que essas trajetórias de sucesso têm em comum? Cris observa de perto esses percursos há tempo suficiente para enxergar padrões que escapam ao olhar apressado. Não se trata de estilo ou técnica, mas de algo mais profundo: a consistência de uma linguagem que nasce de dentro para fora, sem concessões ao mercado ou às tendências passageiras.

“Eu acho que elas cresceram junto com o próprio cenário do design brasileiro. A gente começou com 10, 15 criativos numa edição. Hoje são mais de 100. A feira se expandiu, foi para outros estados, e as carreiras individuais também se expandiram”, explica a curadora. “Tem uma maturidade acontecendo no design autoral brasileiro. Ele ganhou espaço, ganhou mercado, ganhou respeito, e essas trajetórias são reflexo disso.”

O erro como método

Esse reconhecimento, no entanto, não nasce do acabamento impecável ou da peça pronta. Uma das ideias-força desta edição é justamente o oposto: abrir os bastidores, mostrar o erro, o teste, o processo.

A feira se propõe a funcionar como um “ateliê aberto”, onde o público pode ver o artesão trabalhando ao vivo, com as mãos na matéria, a peça ainda por terminar.

A percepção de Cris sobre o que define o design também se transformou ao longo desses 16 anos de feira. O que antes poderia ser entendido como resultado, hoje se expande para abarcar o caminho percorrido até ele — os gestos, as tentativas, os riscos que não deram certo e viraram aprendizado.

“Hoje eu não consigo ver um objeto sem pensar em tudo que está por trás dele: quem fez, onde fez, quais erros, quais testes, qual história. O design, pra mim, está muito mais no processo do que no resultado final. A peça pronta é só a ponta visível de algo muito maior.”

Do Oiapoque ao Chuí

Essa visão ampliada do que é design também se reflete na curadoria. A lista de expositores desta edição — mais de 80 nomes entre artesãos, ilustradores, estilistas, joalheiros e representantes de comunidades criativas tradicionais — não é fruto do acaso.

Há uma escolha deliberada em dar espaço a quem historicamente fica às margens do circuito tradicional do design, como mulheres, comunidades tradicionais e criadores de fora do eixo Rio-São Paulo.

“Hoje eu posso dizer que a feira tem Brasil inteiro dentro dela. E conseguir fazer edições fora do eixo Rio–São Paulo com mais de 80 expositores é uma conquista enorme nesse sentido.”

Design sem clichê

Num momento em que “design autoral” virou termo guarda-chuva para todo tipo de produto, essa distinção se torna ainda mais crucial. Afinal, como separar o joio do trigo?

Cris tem sua própria régua: o design que tem discurso é aquele que dispensa texto explicativo, que carrega história e intenção na própria materialidade. O que só tem estética é bonito, mas vazio — não pergunta nada, não conta nada.

“No fundo, todo design é autoral, porque sempre tem alguém criando. A diferença, pra gente, está na consistência. A gente busca coerência entre discurso, processo e resultado”, diz Cris. “Não é sobre julgar o que é bom ou ruim. É sobre afinidade. Sobre marcas que fazem sentido dentro daquilo que a feira acredita e constrói há 16 anos.”

E se fosse preciso eleger um objeto ou material que simbolizasse o espírito da Feira na Rosenbaum em 2026? “Eu acho que o espírito da Feira não é um produto. Ele é a soma das escolhas que a gente faz, a união de todo mundo que constrói isso junto. É um projeto feito a muitas mãos. É ver tantos designers diferentes ocupando o mesmo espaço com força e união. Isso, pra mim, é a feira.”

Serviço

Quando: de 7 a 12 de março, das 11h às 20h

Onde: Rua Basílio da Gama, n° 177, República. Ao lado da Galeria Metrópole.


Danae Stephan

Editora, produtora, leitora compulsiva e inimiga do lugar-comum há mais de 30 anos. Hoje à frente do "Misses at News", já passou por "Folha de S.Paulo", Editora Abril, Editora Globo, "UOL" e "Glamurama", entre outros.

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