Oscar 2026: o teste em que o cinema ainda não passou
O que a cerimônia desse domingo, um roteiro de 1979 e uma tirinha de 1985 revelam sobre a representatividade feminina no cinema
O Oscar rolou ontem, e o Brasil saiu de mãos vazias. O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, chegou com quatro indicações, recorde para o cinema nacional, e não levou nenhuma. Registro feito.
Mas o que quero falar aqui é sobre o que a cerimônia confirmou, mais uma vez: o machismo da indústria. Chegamos à 98ª edição do prêmio com a mesma representatividade de décadas atrás.
“Ah, mas ganhamos a primeira estatueta de fotografia”. Sim, depois de quase 100 anos de prêmios. Autumn Durald Arkapaw subiu ao palco para receber o prêmio por “Pecadores” e pediu que todas as mulheres na plateia se levantassem: “Eu não cheguei aqui sem vocês.”
Pelo menos a categoria estreante, Melhor Direção de Elenco, também foi para uma mulher: Cassandra Kulukundis, pelo trabalho em “Uma Batalha Após a Outra”.
Já a sul-coreana Maggie Kang, primeira mulher a receber o prêmio de Melhor Animação por “Guerreiras do K-Pop”, destacou a importância da representatividade racial.
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“Pra todos vocês que se parecem comigo, sinto muito que tenhamos demorado tanto pra nos vermos em um filme como esse. Mas estamos aqui, e isso significa que as próximas gerações não terão que ficar esperando”, disse em seu discurso de agradecimento.
Sobre “Hamnet”, que rendeu Melhor Atriz para Jessie Buckley, discorreremos mais abaixo.
Um passo à frente, dois atrás
Os números falam por si. Em 2024, entre os 100 filmes de maior bilheteria de Hollywood, 13,4% foram dirigidos por mulheres — o melhor resultado em 19 anos de pesquisa, segundo o relatório anual da Annenberg Inclusion Initiative, think tank da Universidade do Sul da Califórnia que monitora diversidade e inclusão na indústria do entretenimento desde 2007.
Se esse é o melhor resultado, quer dizer que dá pra piorar ainda mais? Sempre dá: em 2025, esse número despencou para 8,1%, mesmo patamar de 7 anos antes, 2017. O relatório chamou de “grande recessão”.
Na Netflix, que em 2025 teve 20,5% dos seus filmes originais dirigidos por mulheres — mais que o dobro do cinema comercial —, também não há motivo pra comemorar: em 2022, esse número era 32,3%.
Não sou cinéfila, nunca fui. Mas parte do meu desinteresse certamente vem do cansaço de ver na tela sempre a mesma perspectiva: a masculina.
Lugar de fala?
Chego a essa conclusão quando olho para os poucos filmes que me chamaram a atenção nas últimas décadas (exceto animações, que amo e acompanho de perto). Por exemplo, vi “Guerra ao Terror”, um tema que não me atrai particularmente, muito antes de “Avatar” — e não porque o assunto me interessasse, nem porque tivesse ganho o Oscar.
Foi apenas pelo fato de ter sido dirigido por uma mulher: Kathryn Bigelow, a primeira — e até hoje única — a ganhar o Oscar de Melhor Direção, em 2010. Ela concorria com o ex-marido James Cameron e o espetáculo técnico de “Avatar” — que assisti depois, por pura pressão filial, e que considero uma porcaria bem executada.

Kathryn Bigelow, diretora de “Guerra ao Terror”, de 2010 — até hoje a única mulher a vencer na categoria
Bigelow ganhou com um filme sobre guerra, suor e masculinidade. Sem romance, sem personagem feminino relevante. O que mostra que o problema não é o assunto, mas sim o olhar.
Um olhar feminino não significa um filme “feminino”, no sentido mais raso da palavra. Significa, isso sim, fugir de falas inverossímeis, situações absurdas ou cenas de sexo fake — que é o que se consegue quando homens tentam “traduzir” como pensam ou agem as mulheres.
Roteiro sem gênero
O que me remete a 1979, quando Dan O’Bannon entregou a Ridley Scott um roteiro com uma característica incomum: no papel, todos os personagens de “Alien” eram agênero e, portanto, intercambiáveis entre homens e mulheres.
Sem romance, sem cena de resgate à donzela desprotegida, sem falas inócuas. Apenas uma tripulação em pânico e a pessoa mais competente no centro. E que vencesse o melhor — ou, no caso, “A” melhor, Sigourney Weaver, no icônico papel de Ellen Ripley.

Sigourney Weaver como Ellen Ripley em “Alien” (1979)
Ripley não é forte apesar de ser mulher. Ela é forte simplesmente porque não foi escrita da forma (equivocada e superficial) que os homens acham que uma mulher pensa, fala e age. Ripley foi escrita como gente.
E destruiu todos os clichês acima não por intenção feminista, mas porque o roteiro simplesmente não tinha os vieses aos quais estamos “acostumados”.
Isso tem nome: representatividade. E o cinema tem um problema sério com ela.
Um mundo de clichês
Os tropeços nessa indústria não são acidentais. São reflexo direto de quem está no comando desde o roteiro. Basta ver os arquétipos femininos que pipocam na tela — são tão batidos que têm nome e sobrenome:
A manic pixie dream girl (algo como “a fantasia de garota ideal”) — quando a mulher existe para inspirar o herói masculino. Não tem história própria, não tem objetivo além dele.
A mulher na geladeira (ou “fridged”) — quando a personagem feminina morre ou é traumatizada para motivar a jornada do protagonista masculino. O nome vem dos quadrinhos do Lanterna Verde, de 1994, quando o herói encontra a namorada assassinada e guardada dentro de uma geladeira.
A workaholic que precisa aprender — bem-sucedida, independente, a quem só falta um alecrim dourado para ensiná-la a amar.
A que chora pra mostrar que é humana — quando o roteirista não sabe como dar profundidade emocional a um personagem feminino, ele chora. O homem na mesma cena fica em silêncio – e parece muito mais complexo e profundo.
O machismo em 3 critérios
E isso nos leva ao teste de Bechdel. Já ouviu falar?
Em 1985, a cartunista Alison Bechdel publicou uma tirinha chamada “The Rule”. Uma personagem diz que só assiste a filmes que passam em três critérios: 1. ter pelo menos dois personagens femininos com nome, 2. que conversem entre si, 3. sobre qualquer coisa que não seja um homem. E completa: “O último filme a que assisti foi ‘Alien’”.

A tira de jornal que deu origem ao teste de Bechdel | Reprodução
Era uma piada. Virou um dos principais instrumentos de medição de representação feminina em várias áreas.
Quase metade dos filmes mais populares das últimas quatro décadas não passa. E metade dos que passam só o fazem porque as personagens femininas conversam sobre… casamento ou filhos!
É uma régua baixíssima. E o cinema ainda tropeça nela.
A saída? Mais mulheres nas equipes. Quando as equipes de criação são exclusivamente masculinas, cerca de 50% dos filmes não passam no teste de Bechdel. Adicione uma mulher à equipe e esse número cai para um terço. Quase todos os filmes escritos inteiramente por mulheres passam.
Corta pra 2026: entre os dez indicados a Melhor Filme, “Pecadores” e “Uma Batalha Após a Outra” passam nos três critérios. “F1” e “Marty Supreme” são dramas de protagonismo masculino sem personagens femininas relevantes, que já tropeçam no segundo critério.
“O Agente Secreto” e “Valor Sentimental” — que levou o prêmio de Melhor Filme Internacional — preenchem com folga os três requisitos.
Manifesto feminista
“Hamnet” não só preenche os critérios como é quase um manifesto feminista. Não vai pelo mesmo caminho de “Alien”, mas chega ao mesmo lugar.
Em vez de remover o gênero da equação, coloca mulheres em toda a cadeia criativa: o romance é de Maggie O’Farrell, o roteiro foi escrito por ela e Chloé Zhao, que também dirige. O personagem principal é Agnes — a mulher por trás de Shakespeare que a história oficial apagou durante séculos.
Dois caminhos opostos, o mesmo resultado: um personagem feminino que não precisa ser explicado.
A pergunta que Alien fez sem querer em 1979 — e que “Hamnet” responde de outro jeito em 2026 — continua sendo a mais importante: quem está por trás das câmeras?
Porque o que não entra na sala não entra no roteiro. E o que não entra no roteiro não entra na tela. Nem ganha prêmio.
